Meus Amigos, eu vou aqui fazer coro com todos aqueles que elogiam o
lançamento do programa Brasil Carinhoso. Todos nós que assistimos à
apresentação da Presidenta. O programa temos que reconhecer que esse é um salto
positivo, que esse é um salto de generosidade que o Brasil esperou
séculos para fazer.
Mas devo dizer que nem tudo que é bom é
suficiente. E o programa lançado ainda não é suficiente, longe está.
Pode-se até dizer que a própria Presidenta, durante o seu discurso,
disse que isso ainda é pouco. Eu quero ir nessa linha que ela própria
abriu à margem: é pouco e precisa ser mais.
Em primeiro lugar, é preciso lembrar que
não basta o carinho às crianças, embora eu ache que seja o mais
importante, que certamente gostaria de
ver também mais carinho com os aposentados. Eu, pessoalmente, gostaria
de ver mais carinho com os professores. E não dá para jogar todo o custo
do salário dos professores sobre os ombros dos prefeitos, como não dá o
Fundeb atual para elevar o salário dos professores como deveria.
Então, inicialmente, elogiando que tenha
havido esse programa, esse salto, fica aqui o registro de que
precisamos de outros carinhos, inclusive um carinho muito especial: se o
Brasil quer ser carinhoso, há 14 milhões de adultos analfabetos neste
País e que ainda não têm um programa avançado, radical de erradicação do
analfabetismo.
Meus Amigos, é preciso ser carinhoso também
com esses 14 milhões de analfabetos, com os muitos milhões de
aposentados, com os dois milhões de professores da rede pública. A
Presidente ainda tem tempo de fazer esses gestos carinhosos.
Quero lembrar também que temos, às
vezes, sido mais do que carinhosos – e não vamos usar nenhuma palavra
para mostrar o além do carinho – com alguns setores, com os incentivos
que são dados à indústria no Brasil, os incentivos que são dados na
desoneração da folha de pagamento para beneficiar empresários. Ou seja, quando a gente
compara esses carinhos ao setor produtivo com os carinhos ao setor
social, percebemos que o setor produtivo ainda está sendo mais bem
aquinhoado de carinho por parte dos governos.
Ao mesmo tempo em que quero elogiar o
lançamento do programa, quero chamar a atenção para o que vem depois de
carinhos feitos e maiores com outros setores que talvez precisem de
muito menos. Mas, além disso, quero falar da insuficiência pela
necessidade, possibilidade e exemplos que temos de um sistema que vá
além do carinho e transforme este País.
Nós temos hoje 13 milhões de bolsas
família sendo distribuídas. Eu estava pensando aqui: se pegássemos de
2004 para cá... Nem tanto de 2001, quando realmente começou no governo
Fernando Henrique, nem indo lá atrás. Se considerarmos mesmo de 2004 para cá e se
considerarmos que a idade média das crianças, em 2004, que recebiam a
bolsa família fosse de 12 anos, essas crianças hoje estariam com 19
anos, ou seja, já são pais que recebem a bolsa família, porque a bolsa
família não abriu a porta para que elas pudessem viver sem a bolsa
família.
Um dia, quando contarem a história do
programa Bolsa Família, vão reconhecer que é uma elevada generosidade. No entanto, o mundo e cada país só devem
realmente comemorar quando o número de pessoas que precisam da bolsa
escola, da bolsa família diminuir, e não quando aumentar. Quando
aumenta, Meus Amigos, é prova de generosidade, mas, quando diminui, é prova
de justiça. O aumento no número de bolsas família é uma questão de
generosidade; a redução daqueles que necessitam desse programa, aí sim, é
uma questão de justiça.
É ótimo termos governos generosos. Mas nós precisamos
dar um salto para transformar um programa generoso em um programa justo.
Foi um erro qualitativo com um excelente
avanço quantitativo e, do ponto de vista de matar a fome, de atender
imediatamente às necessidades, temos que tirar o chapéu para o programa.
Do ponto de vista de fazer justiça no sentido de diminuir a necessidade
de bolsas, ainda estamos um pouco longe, mas, pelo menos, a Presidenta
ontem mostrou que estamos caminhando – devagar, para o meu gosto –, mas
na direção certa.
Era isso, Meus Amigos.