quinta-feira, 5 de agosto de 2010

A RAPOSA, O LOBO E A COBRA

Eu, maranhense, não sou cadáver nem vivo corpo
Sou o que fizeram de mim: nem escravo ou liberto
Sou preto, branco pobre, remediado e analfabeto
Aprisionado em cadeia sem grade, sem fim.
Meus algozes nasceram da ditadura
Vivem em regalia, em anarquia, festa e usura
São desumanamente ferozes há longo tempo
E se alimentam de ignorância, pobreza e fome.
Sou maranhense, não tenho credo cor ou nome
Sou velho, jovem ou criança desdentada
Sem educação, sem terra, sem posse, sem esperança
Um triste rosto com alegria apagada



Moro em palafita, casa de taipa ou choupana
(Dizem por que gosto, por opção, por tradição…)
Vizinho da burguesia como mendigo em Copacabana.
Possuo poderosa arma: um título de eleitor
Mas o tiro, pela culatra, é sempre em meu peito
Não respeitam minha decisão, minha opção, o pleito
Rasgam a constituição, matam o estado de direito.
Sou povo, massa de manobra, objeto de manipulação
Em mãos da (velha) raposa, do (esquálido) lobo, da cobra venenosa
Sou o povo e a terra, sou o Maranhão, presente de pai para filha
De volta ao baralho, à jogatina política da quadrilha
Sob jugo da usurpação, da corrupção do poder
Nas mãos dessa família, em cuja cartilha a justiça aprendeu a ler.
Sou, às vezes, raro maranhense, que lê, entende e pensa
Que fugiu do cerco da fome, que acrescenta ao nome
O título de educador, artista, ator, malabarista, trabalhador…
Que não se submete, não se deixa manipular como marionete
Sou maranhense tenaz, capaz, com coragem de lutar
De jornal pequeno, à boca miúda, da esquina, de mesa de bar
Mas de voz firme que faz ecoar a insubmissão
Nos quatro cantos do palácio, ilha e mansões
Tenho como missão a liberdade exaltar.
Sou maranhense que não se dobra, não se deixa governar
Pela maldade, pela mediocridade, pela arbitrariedade
Pelo desejo e birra de simplesmente mandar
Pela ira, pela mentira, pela mira e o(a) mirante
A vontade absoluta d(o)a governante
Pela promessa reformulada e não cumprida
Manipulada, esfarrapada, mas não esquecida.
Não sou maranhense do Maranhão
Sou filho do êxodo, da perseguição
Do regime que oprime, de exceção.
Exceto a vida, me restaram a coragem e a decisão
De fugir da miséria do meu Estado
Em permanente e pública calamidade
De mostrar escândalos na claridade do dia
De denunciar acordos que fedem mais que latrina
Sem o temor da justiça, certos da impunidade
De mostrar obscuridades, obscenidades nas noites de jogatina
Crimes nus, despudorados, prática do poder que apodrece
Sou maranhense do sul, do norte, daqui e do Amapá
Sou dos garimpos de sorte, dos subempregos em qualquer lugar
Maranhense evadido, corrido da ilha de Upaon-Açu.
Tanto mal um dia se consome e comerá o próprio nome
Assim como o verme mata quem mata sua fome.
Como a sarna mata o cão, o clã lentamente se mata
Engasgado com o que lhe farta – a ambição.

Aelson Barros

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